Como observar o céu a olho nu – durante a quarentena

Dá pra observar o céu durante o isolamento social?

Dá sim!

Não poder ir até um Observatório não deve impedir ninguém de realizar uma das atividades mais antigas da nossa civilização: observar e apreciar o céu noturno. 

Mas atenção: observar é diferente de apenas “ver”. Observar é buscar e identificar objetos e fenômenos astronômicos, perceber como o céu muda dia após dia e como os fenômenos são cíclicos. Ou seja, que o Universo é dinâmico e nunca uma noite é igual à outra! E para isso não são necessários binóculos, lunetas ou telescópios, apenas nossos olhos.

E dá pra observar muita coisa: nossa Lua, diversos planetas, estrelas, constelações… Às vezes meteoros e satélites, além da Estação Espacial Internacional e o Telescópio Espacial Hubble!

Trouxemos pra vocês algumas orientações gerais para a observação noturna, com foco especial na observação a olho nu. São necessárias apenas curiosidade, paciência e desejo de conhecer um pouco mais do nosso Universo. No final do texto tem uma lista das efemérides (eventos que acontecem por um período curto de tempo) das próximas semanas e links com ferramentas que auxiliam a prática observacional.

Algumas dicas para começar:

  1. Encontre os horizontes de cada ponto cardeal. Não precisa saber onde está cada ponto exatamente, apenas qual região do horizonte corresponde aos pontos norte, sul, leste e oeste. É fácil: a região onde nasce o Sol é o horizonte leste, e onde o Sol se põe é o horizonte oeste.
  2. Observe o caminho que o Sol faz no céu ao longo do dia, do horizonte leste ao horizonte oeste: é a chamada linha da eclíptica. Todos os objetos do nosso Sistema Solar cruzam o céu mais ou menos nessa mesma faixa, então para encontrar a Lua, planetas e outros objetos, é só procurar na trilha do Sol.
  3. Perceba o movimento aparente da esfera celeste: as estrelas parecem se movimentar “juntas”, como se estivessem girando em volta da Terra incrustadas em uma esfera. Claro, essa esfera é imaginária, apenas uma impressão que temos ao observar corpos celestes espalhados pelo espaço a partir de um único ponto, nosso planeta em movimento. 
  4. Mas olha que interessante: as estrelas são imóveis umas em relação às outras (por isso formam constelações), e aparentam se movimentar juntas, mas a posição dos objetos do nosso Sistema Solar muda dia após dia ao longo da linha da eclíptica.
  5. Identifique as constelações mais facilmente visíveis a partir de suas estrelas mais brilhantes, com o auxílio de cartas celestes, apps e softwares (linkados no final do texto). Cada constelação é uma área ou setor da esfera celeste, e todos os objetos que estão dentro dessa área, visíveis à olho nu ou não, fazem parte da constelação, independentemente do desenho.
  6. Dica para diferenciar planetas de estrelas: se o ponto de luz cintila (“pisca”), é provável que seja uma estrela. Se é estático, é um dos planetas.
  7. Acompanhe a passagem da satélites, do Hubble e da Estação Espacial Internacional com a ajuda de apps (linkados ao final do texto) e através das nossas postagens nos stories do Instagram. Esses objetos podem ser vistos cruzando o céu sempre após o Sol se pôr, e horas antes do Sol nascer, já que seu brilho é justamente um reflexo da luz solar. São dezenas deles todas as noites!
  8. Nebulosidade e chuvas, atmosfera com muita fumaça ou poeira, tempo quente e/ou úmido, poluição luminosa e a luz ofuscante da Lua cheia são fatores que atrapalham as atividades de observação. Prefira lugares com pouca ou nenhuma iluminação (Atenção! Deixe esta dica para quando não estivermos mais em isolamento social). Também é importante deixar que nossos olhos se acostumem com a escuridão e assim possam perceber objetos pouco luminosos – esse processo leva cerca de 20 minutos, mas sem usar o celular ou luzes brancas de lanternas.

Como observar cada tipo de objeto ? 

Lua

  • Fases – a cada dia a superfície se ilumina mais um pouco, até chegar na fase cheia, e depois vai ficando a cada dia menos iluminada, até a fase nova, ou seja: a Lua nunca vai estar igual ao dia anterior. Esse ciclo se chama lunação e leva cerca de 29,5 dias (veja efemérides abaixo). 
  • Horário – a cada dia ela nasce 50 minutos mais tarde.
  • Luz cinérea – alguns dias antes e depois da fase nova, quando a Lua aparenta ser um arco fino iluminado, dá pra observar levemente toda a área escura da superfície, e isso acontece porque a Terra está refletindo a luz do Sol em direção à ela (veja efemérides abaixo).

Planetas

  • Identificação: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno são os planetas que podemos observar à olho nu, dependendo da época do ano e da órbita de cada um. Os dois primeiros só são visíveis ao anoitecer ou amanhecer, porém Marte, Júpiter e Saturno podem permanecer no céu noturno por toda a noite e madrugada. Todos eles podem ser observados nas próximas semanas (veja efemérides abaixo).
  • Conjunções – uma conjunção astronômica acontece quando dois ou mais objetos celestes aparentam estar próximos momentaneamente. Podem acontecer apenas entre planetas ou entre eles e outros objetos como estrelas e a Lua (veja efemérides abaixo).

Estrelas

  • Notar as diferenças de cores – as azuis são estrelas muito quentes, jovens e massivas, e as vermelhas são mais frias e antigas.
  • Horário – cada estrela nasce cerca de 4 minutos mais cedo a cada dia, e consequentemente se põe 4 minutos mais cedo também, e isso faz com que o céu noturno se modifique dia após dia. 
  • Magnitude aparente – é o brilho de uma estrela visto a partir da Terra. As mais brilhantes são fáceis de encontrar e ajudam no reconhecimento das constelações. Nas cartas celestes são representadas pelos pontos maiores. 
  • Algumas das estrelas mais luminosas (e suas respectivas constelações) visíveis no céu entre o fim do outono e o começo do inverno (maio/junho): ao anoitecer, Rigel e Betelgeuse (Órion), Sirius (Cão maior), Procion (Cão menor), Canopus (Carina), Rigil e Hadar (Centauro), Acrux (Cruzeiro do Sul), Arcturus (Boieiro); na madrugada, Antares (Escorpião), Altair (Águia), Spica (Virgem), Vega (Lira) e Achernar (Eridano, o rio).

Constelações

  • Sazonalidade – as constelações visíveis no céu mudam de acordo com a época do ano, por conta do movimento da Terra em torno do Sol. Por exemplo, as estrelas que vemos no céu noturno no auge do verão não são visíveis no auge do inverno, e vice-versa. Cada estação tem como símbolo a constelação mais evidente no alto do céu durante sua duração. Na primavera é Pegasus, no verão é Órion, no outono é Leão e no inverno é Escorpião (isso para o hemisfério sul – para o hemisfério norte é o inverso). 
  • Identificação – o método mais simples é encontrar as estrelas mais brilhantes de uma região (por exemplo, mais próximas ao horizonte oeste) e buscar o mesmo padrão nos mapas das cartas celestes (sempre do mês vigente) ou app. Nesses mapas, as estrelas são representadas por pontos ou “bolinhas” – quanto maior o ponto, mais brilhante é a estrela. As primeiras estrelas e constelações identificadas servem como referência e ponto de partida para a busca das constelações próximas. É assim, por comparação entre cartas celestes e céu noturno, e usando as estrelas mais luminosas como referência, que investigamos a esfera celeste.
  • Constelações facilmente identificáveis para observar entre o fim do outono e o começo do inverno (maio/junho): logo ao anoitecer, no horizonte oeste, Órion (o caçador, cujo cinturão é chamado de “três marias” e tem Rigel e Betelgeuse como estrelas mais luminosas), Cão Maior (sua estrela mais brilhante é Sirius) e Cão Menor (estrela mais brilhante é Procion); na região sudeste, o Cruzeiro do Sul (as três estrelas mais luminosas são Acrux, Mimosa e Gacrux); a partir das 20h o Escorpião, que é a constelação símbolo do inverno, nasce no horizonte leste e cruza o céu ao longo de toda a madrugada – sua estrela mais brilhante é a gigante vermelha Antares.

Confira abaixo a lista das efemérides astronômicas do período entre 21/05 e 30/06, e uma série de sites e aplicativos indicados pelo Observatório. Nossa equipe está disponível para tirar dúvidas nas nossas redes sociais. Boa observação e céus limpos para todos!

Efemérides maio/junho 2020

22/05 – Lua nova (0% iluminada)

22-23/05 – Conjunção Mercúrio + Vênus – a partir das 17h50

23/05 – Luz cinérea da Lua

24/05 – Conjunção Lua (3% iluminada) + Mercúrio + Vênus – a partir das 17h50

28/05 – Vênus deixa de ser visível ao anoitecer

30/05 – Lua em quarto crescente (50% iluminada)

03/06 – Lua (94% iluminada) no perigeu: 364.366 km de distância da Terra

05/06 – Lua cheia (100% iluminada) – visível por toda a noite

08/06 – Conjunção Júpiter + Saturno + Lua (89% iluminada) – a partir das 21h

11/06 – Vênus passa a ser visível ao amanhecer – 6h

13/06 – Lua em quarto minguante (50% iluminada) e em conjunção com Marte – a partir das 01h

14/06 – Lua (41% iluminada) no apogeu: 404.595 km de distância da Terra

19/06 – Conjunção Vênus + Lua (4% iluminada) + Aldebaran (Alfa do Touro) – 05h50

20/06 – Solstício de Inverno às 18h43

21/06 – Lua nova (0% iluminada)

28/06 – Lua quarto crescente (50% iluminada) – Nasce 12h

29/06 – Lua (61% iluminada) no perigeu: 368.958 km km de distância da Terra

  • Órion deixa de ser visível no início de junho
  • Escorpião já é visível por toda a noite
  • Mercúrio está visível brevemente ao anoitecer até o início de junho
  • Marte pode ser visto após à 01h
  • Júpiter e Saturno estão visíveis após às 20h
  • 05/06 – Eclipse lunar penumbral – não visível do Brasil
  • 21/06 – Eclipse solar anular – não visível no Brasil

Links de apoio:

  • Efemérides Astronômicas de 2020

Observatório do Valongo, UFRJ – https://ov.ufrj.br/calendario-das-efemerides-astronomicas-2020/

Momento Astronômico (Prof. Dr. Marcos R. Calil) – 

http://www.momentoastronomico.com.br/

Boletim Observe! (Alexandre Amorim, NEOA-JBS) –

http://www.geocities.ws/costeira1/neoa/observe.pdf

Efemérides (Prof. Dr. Rodolfo Langhi, Observatório Didático de Bauru/SP) –

https://sites.google.com/site/proflanghi/efemerides

  • Cartas Celestes

Mapa celeste do Heavens Above – 

https://www.heavens-above.com/SkyChart.aspx?lat=-22.317&lng=-49.067&loc=Bauru&alt=536&tz=EBST

Mapa celeste do mês com objetos para observar SkyMaps –

http://www.skymaps.com/downloads.html

  • Softwares e apps

Stellarium (software gratuito para reconhecimento do céu)

https://stellarium.org/pt/

Star Walk 2 (app para reconhecimento do céu)

https://play.google.com/store/apps/details?id=com.vitotechnology.StarWalk2Free&rdid=com.vitotechnology.StarWalk2Free

Carta Celeste (app para reconhecimento do céu)

https://play.google.com/store/apps/details?id=com.escapistgames.starchart&hl=pt_BR

SkyMap (app para reconhecimento do céu)

https://play.google.com/store/apps/details?id=com.google.android.stardroid&hl=en

ISS Detector (app para acompanhamento da Estação Espacial Internacional – outros objetos apenas na versão paga)

https://play.google.com/store/apps/details?id=com.runar.issdetector&hl=en

Heavens Above (app gratuito para acompanhamento de satélites)

https://play.google.com/store/apps/details?id=com.heavens_above.viewer&hl=enLua 

  • Veja como está a Lua agora (NASA)

https://svs.gsfc.nasa.gov/4768

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